Brasil – O tráfico de animais silvestres permanece como um dos maiores desafios para a conservação da biodiversidade nacional, conforme dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Com uma vasta oferta de espécies endêmicas e cobiçadas internacionalmente, o país vê aves, répteis e mamíferos entre os mais visados, alimentando um ciclo vicioso de demanda por raridade e status que ameaça seriamente a fauna brasileira.
Um Desafio Multidimensional para a Biodiversidade Brasileira
A complexidade do tráfico de animais silvestres no Brasil reside na intrínseca combinação de fatores biológicos, territoriais, econômicos e sociais que alimentam essa prática criminosa. O país, detentor da maior biodiversidade do planeta e lar de inúmeras espécies endêmicas encontradas exclusivamente em seu território, torna-se um alvo primário para as redes de traficantes. A grande oferta de fauna única e a demanda, tanto interna quanto internacional, impulsionam o comércio ilegal, gerando um cenário onde a preservação ambiental enfrenta obstáculos monumentais. Além disso, a busca por espécies raras é frequentemente motivada por um desejo de status social, transformando a posse de animais silvestres em cativeiro em um símbolo de prestígio, ignorando completamente o custo ambiental e ético envolvido.
Conforme salientado pelo Ibama, “Ter em casa espécies exóticas e raras é um símbolo de status, ao custo da liberdade do animal. É um ciclo vicioso: o tráfico reduz o número da população de uma espécie, tornando-a mais rara na natureza; a espécie rara, por sua vez, torna-se ainda mais desejável pelos traficantes de animais”. As aves canoras e ornamentais, como coleirinha, azulão e papagaio-verdadeiro, são particularmente cobiçadas pela beleza de seu canto e plumagem. Entre os mamíferos, saguis e macacos-prego são frequentemente capturados para serem vendidos como animais de estimação ilegais, enquanto répteis como jabutis-piranga e tigres-d’água são alvos devido a crendices populares e ao crescente mercado de pets exóticos. Vale destacar que a região Norte, especialmente a Amazônia, é a mais afetada, com muitas espécies sendo traficadas para o Sudeste brasileiro, e destinos internacionais incluem a Ásia (para ovos e partes de animais, utilizados como iguarias) e a Europa (para animais vivos, muitas vezes via outros países sul-americanos como intermediários).
Os Esforços de Resgate e a Luta Pela Reintegração
A reintegração de animais resgatados do tráfico à natureza é um processo longo e complexo, com resultados que variam significativamente. Embora cerca de 70% dos animais que sobrevivem e são reabilitados consigam ser devolvidos ao seu habitat natural, muitos não resistem às condições brutais de captura, transporte e cativeiro ilegal, sucumbindo antes mesmo de receberem ajuda. Instituições especializadas, como o Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de São Paulo (Cetras-SP), desempenham um papel vital, acolhendo exemplares apreendidos por autoridades como a Polícia Militar Ambiental e o Ibama, além de animais entregues voluntariamente por munícipes. A bióloga Lilian Sayuri Fitorra, chefe de departamento do Cetras-SP, aponta que a “grande biodiversidade, a questão ‘cultural’ da população e a falta de informação faz com que muitas pessoas acreditem que é simplesmente aceitável manter um animal silvestre”, evidenciando a necessidade urgente de educação ambiental e conscientização para combater esse crime.
Perspectivas e Ações Contínuas
O combate ao tráfico de animais silvestres exige uma abordagem multifacetada que inclua fiscalização rigorosa, cooperação internacional, reabilitação de fauna e, fundamentalmente, educação da população. A persistência do problema ressalta a importância de fortalecer as políticas de proteção ambiental e de engajar a sociedade na denúncia e na não-aquisição de animais de origem ilegal. O futuro da rica biodiversidade brasileira depende diretamente da eficácia dessas ações e da mudança de mentalidade em relação à vida silvestre, garantindo a liberdade e a sobrevivência das espécies em seus ecossistemas naturais.
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